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O horror do assalto infelizmente assombra a sociedade, desde os tempos dos contos de fadas... Deparamo-nos com situações que desafiam a capacidade de se adaptar diante do trauma deixado por experiência tão brutal.

 


Por Marilene Lima**

O assalto pode ser definido como 'aquele em que os assaltantes utilizam armas para intimidar ou atacar as suas vítimas'[1]. É uma situação de usurpação do direito do outro de ter algo sem que ele tenha vontade própria de emprestar ou doar. Ele representa para a vítima uma situação traumática de grande intensidade. Produz dano emocional e pode vir seguido de lesões na integridade corporal ou até mesmo a morte (quando é chamado de latrocínio= assalto seguido de morte).

O assaltante realiza um violento ato de poder sádico, que faz com que a vítima seja um mero objeto de sua ira e supostos traumas. Não há empatia, mas crueldade e violência. O assaltado vivencia uma situação limite entre a sanidade e a loucura, um trauma de grande importância e um divisor de águas entre o que essa pessoa foi ou viveu e como passará a ser ou viver a partir dele. A angústia presente nele é de impotência, de temor que paralisa, desamparo extremo e insegurança básica e, como “a situação traumática aterrorizante funciona como uma inundação de afetos não simbolizados” (Baranger, Baranger e Mom, 1987, pag. 16) a violência desestrutura a trama subjetiva, provoca a desestabilização da organização psíquica pré-existente e, portanto o Ego do sujeito (feito objeto) assaltado. A capacidade de simbolização é prejudicada e na maioria dos casos bloqueada, com consequências patogênicas importantes (psicossomatizações como a psoríase, o vitiligo e outras afecções dermáticas, bem como a originação de tiques, cacoetes e até mesmo da síndrome de Gilles de la Tourette, em personalidades já calcadas na estrutura clínica obsessiva).

O temor é, também ele disparador de uma ansiedade paranoide paralisante (a desconfiança a tudo e em todos passa a imperar), pois foi como um sangue-suga que o assaltante roubou algo de valor ou a lembrança de uma situação cara ao assaltado, para empoderar-se e seguir usurpando outros. Ao mesmo tempo que suga a segurança da vítima, ele exala medo e pavor em um menos valido, junto a conteúdos latentes e persecutórios que dispara (isso quando não dispara efetivamente sua arma) no sujeito-objeto de sua revolta.

É muito frequente encontrarmos na pessoa assaltada uma tendência a se esconder, a sentir vergonha de sua “impotência”, culpa e responsabilidade pelas ações do agressor. Ela sente muito medo: de trabalhar, de sair, de estudar, de se divertir, posto que vivencia dia-a-dia o medo momento de horror que a paralisou. Também teme julgamentos e suposições sobre sua personalidade distraída, que dá bobeira, desligada da realidade, no mundo da lua, seus comportamentos, entre outros.

A psicanálise oferece à pessoa que sofreu um assalto a possibilidade de elaborar essas vivências atemorizantes e os traumas e conflitos a partir dele suscitados. Nas palavras de Bion (1962), Elementos Beta, sensações brutas, são transformados em Elementos Alfa, associações, imagens, pensamentos. O processo de terapia permite à/ao paciente sair do estado de paralização e ou tiques de quase paralização. Sua capacidade de encontrar um espaço de contenção ou transformação das angústias e sentimentos penosos pode se expandir. Aos poucos o trabalho analítico favorece o esmaecimento da dor psíquica, e permite que a pessoa possa retomar sua vida, enriquecida e transformada pelas elaborações e interpretações realizadas.

Referências bibliográficas

Baranger, W.; Baranger, M.; Mom, J. – “El trauma psíquico infantil, de nosotros a Freud”. Trauma puro, retroactividad y reconstrucción” Congreso Internacional de Psicoanálisis. Montreal, 1987.

Bion, W. R. – (1962) O aprender com a experiência. Rio de Janeiro: Imago ed., 1991.

Freud, S. (1920) – Mais além do princípio do prazer. In Obras Completas, v.18,  Imago, 1980.


**Psicóloga, Psicanalista, Membro Efetivo da Diretoria Executiva da Associação Brasileira de Apoio e Reabilitação Edukaleidos, Mestre em Educação: História, Política, Sociedade (PUC-SP), Supervisora de Estágios e Docente dos Cursos de Especialização em Formação Psicanalítica, Arteterapia e Pós-graduação em Neuropsicopedagogia no Instituto Edukaleidos.

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[1] in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/a-mao-armada/34720 [consultado em 24-06-2023]

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